Do Tarumã ao Uruguai - história de vida Voltar



Valmor Danielle

Como todo piá nascido no interior, criei-me em meio às pescarias de jundiá, lambari, cará, traíra, numa cultura de pescar para termos “aquela” misturazinha diferente aos finais de semana. Isso lá no rio Tarumã, pelo que sei, hoje em dia um infeliz riozinho que tem sofrido secas absurdas, que chega a sumir com quase toda a água. Mas que saudade!...
Com 17 anos, em 1979, mudei-me para Chapecó e arranjei emprego. Ainda adolescente, para falar a verdade, sentia falta daquelas singelas pescarias, mas nem por isso me sentia estimulado a ir ao Rio Uruguai, talvez por medo do que falavam de suas águas violentas e perigosas, e talvez também porque não tinha mais aquela necessidade de buscar uma mistura diferente, de quando piá.
Passaram-se os anos, e só tinha saudade do querido Tarumã, do tempo de menino. Casei-me com 29 anos, homem maduro, muitos amigos, inclusive daqueles que viviam me chamando para pescar no rio Uruguai. Italianada, festeira, viviam pescando... até que resolvi aceitar um convite e fui à tal. “Mas eu não tenho tralha, não tenho vara, nada”. Meus amigos tinham molinete, caíco (barco), motor, tudo. Vamos lá. Levei uma linhada de mão.
“Que pescaria!” Pescamos de fundo: pintado amarelo, bocudo, pati, mandi. Quanta alegria! Por que não tinha ido antes? Quantos peixes nós trouxemos. Distribuímos pra vizinhos, amigos, de tanto que tinha. Meus dias de piá lá no Tarumã vinham na saudade. Ah meus amigos!... Daí por diante, sempre que possível estava eu lá no velho Uruguai, com suas águas “bravas”, fortes, perigosas, não importava, pescando com meus amigos. Continuo com medo de água brava, mas o Uruguai virou meu amigo. E em amigo a gente confia. Cada vez mais a pesca entrava definitivamente em minhas veias. E queria mais, cada vez mais. Até para o Mato Grosso passei a ir em busca de novos espécimes, dos meus troféus. Falavam demais em grandes pintados, grandes dourados, grandes, grandes, grandes... até barco e com motor de partida elétrica e tudo mais eu comprei. Tudo pela tal pescaria. Que magia tem essa coisa, aliás, coisa de maluco, talvez? Mas mesmo lá no Mato Grosso eu ainda não tinha conseguido fisgar o esperado peixão, o sonhado douradão, aquilo que todo pescador quer, pescar um peixão. Sei lá por que, mas de tanto que falavam do tal Mato Grosso, cheguei a me frustrar e já me consolei que aqui, repito, aqui no velho Uruguai, minhas pescarias eram até melhores. E isso não faz tanto tempo assim, nos idos de 1996. Apenas nove anos atrás. E não é que eu estava certo? Dourado grande, pra valer mesmo, é aqui que tem, ao menos tinha... Em abundância. Até então só não sabíamos o jeito certo de pescar. E digo com certeza que com os demais pescadores aqui da região a história é parecida, ou pelo menos foi. Aqui meus irmãos! Aqui é que estavam os gigantes amarelos, no nosso velho amigo, o rio Uruguai. Que barbaridade.
Fato é que me apaixonei pela pesca, pelo rio Uruguai. Fiz muitos amigos sobre suas águas. Águas estas que ajudaram a desbravar o estado, levou e trouxe progresso, gerou riquezas, alimentou tanta gente... Enfim, conheci sua história, como se faz com um grande amor, conhecer bem para tratar bem. História passada de boca em boca, de pescaria em pescaria. E o dourado, aquele gigante bravo e saltador, acreditem, eu mesmo falei tanto sobre ele que sei, decor e salteado, de tantos e quantos passaram a pescar o gigante dourado, de tanto que falei. E cada um por sua vez, também a outros amigos. Com tanto tempo passado junto ao velho Uruguai, não só eu, outros colegas, muita gente, passamos a enxergar tamanha judiaria que vinham fazendo com nosso velho amigo. Lixo rodando, redes traiçoeiras, desmatamentos, barrancas se desfazendo... E quanta maldade. Sabe o que fizemos? Criamos uma entidade para ajudar a conter aquela judiaria, pois já sentíamos, lá em 1997, que tudo isso colocaria em risco a mesma paixão que ali surgiu um dia. E qual homem nesta vida não protegeria seu amor, sua paixão? Aí nasceu a AARU. Mas vejam bem, naquele tempo nem pensávamos ainda na diminuição dos peixes. Queríamos proteger o rio. Porque ali praticávamos nosso lazer. Mas a coisa evoluiu. E pra pior. Há pouco menos de cinco anos, a cada dia que passa, muito menos peixe vem comparecendo nos anzóis. Hoje em dia, nem se fala mais em pescar bocudo, pintado amarelo, pati. Aliás, infelizmente nem se pega com aquela facilidade de nove anos atrás. Nove anos apenas. Nem ouso pensar como era a vinte, trinta, cinquenta anos atrás. Que será que aconteceu com nossos peixes? Que podemos fazer? Que rumo tomar? Não basta mais falarmos apenas em replantar árvores, nem de combater a poluição, nem apenas de denunciar as crueldades? Nossos vizinhos tem feito a lição de casa, na argentina. E ficam com nosso dinheiro, quando vamos pra lá pescar. E se fosse o inverso? Não nos encheria de orgulho? De prazer? De satisfação em poder pescar sempre, pertinho de casa? gastando pouco, aliás, nossos ribeirinhos e hotéis estariam guardando "las platas" ao invés de pagarmos?
Voltando à nossa história, em que o velho amigo rio Uruguai foi um protagonista principal, alimentando e trazendo riquezas aos nossos antepassados, de geração em geração, o que podemos deduzir? Que hoje em dia, mesmo capenga, doente, frágil, vem proporcionando emoções, poucas, mas emoções ainda nas pescarias de fim de semana...
Seríamos nós, nossa geração, esta que descobriu o método de fisgar o gigante dourado, seríamos estes, os ingratos em deixá-lo morrer? Não vamos socorrer este velho amigo? Que amigos somos nós? Carregaríamos isso em nossa consciência? E nossos filhos? E netos? Que imagem terão de nós?...

Valmor Danielle - Presidente da Associação de Amigos do Rio Uruguai de Chapecó-SC (AARU)

Adaptação e texto: Pescador de Jaú

11.03.2013

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