Relatório de Situação da Colônia Cachoeira (Abr/2010) Voltar

Índice:
Considerações Importantes
Dados da Colônia colhidos em fevereiro de 2003
Relatório de situação geral da Colônia – Abril 2010
O Decreto 11.032 de 19 dez 02
O Parque Natural da Cachoeira do Apa
O Posto de Polícia Militar Ambiental
Situação social dos moradores
A Agricultura familiar
A APPATur

Considerações Importantes

Desde 1996, com a implantação do turismo de pesca na Colônia Cachoeira, boa parte dos moradores da comunidade passou a depender, direta e ou indiretamente, da renda obtida na prestação de serviço aos turistas e pescadores amadores. Antes disso os poucos postos de trabalho eram oferecidos apenas nas fazendas vizinhas, seja para a lida com o gado ou em diárias na limpeza de açudes e aceramento de cercas.

Dois empreendimentos foram instalados:

1- O Hotel Paraíso do Apa, empresa constituída e situada na margem direita do rio, a 1500 metros abaixo do Cachoeirão, onde jovens receberam treinamento para trabalhar como guias e piloteiros, garçons, atendentes, auxiliares de cozinha, ajudantes de oficina e de almoxarifado, manutenção de barcos e motores de popa, serviços gerais, etc. Inúmeras vagas de emprego com carteira assinada foram criadas, além de vagas para serviços de temporada. Os cursos foram ministrados em parceria ou com SEBRAE e Instituto Acá ou prefeitura municipal ou Marinha e com a APPATur depois de sua fundação;

2- O Camping Cachoeirão, empreendimento informal situado próximo às corredeiras, que apenas alugava local para pescadores armarem suas barracas e empregava algumas poucas pessoas sem carteira assinada.

Por conta dessa nova realidade, à época, famílias iniciaram a comercialização de iscas inclusive com produção própria daquelas feitas com a polpa da bocaiúva, passaram a plantar uma maior quantidade de mandioca e batata doce, produzir galinhas e ovos caipiras, queijos, doces caseiros, etc, cujas produções eram compradas pelo hotel e por turistas e pescadores. Chegou-se a iniciar uma oficina de treinamento para produção de polpas de frutas e compotas, para uma futura cooperativa entre as mulheres da vila.

De 1999 a 2003 os empresários do Paraíso do Apa trouxeram inúmeros programas de TV de grande veiculação para gravarem na Colônia Cachoeira, a exemplo do Terra da Gente (Rede Globo – 4 edições), Caminhos da terra (Rede Record-1 edição), Programa do Baleia (Band-SP-1 edição), Caminhos do Brasil (Rede Vida-1 edição), além de revistas especializadas que fizeram inúmeras matérias sobre os grandes peixes do rio Apa, suas belezas naturais, etc.

Já em 2000, numa ação planejada e de carona nas divulgações que seriam feitas pelas TVs e revistas, João Carlos Pinto da Silva, então gerente do Paraíso do Apa, iniciou na prática a implantação da modalidade “Pesque-e-solte”, investindo no treinamento dos funcionários e guias de pesca para essa prática.

Turistas de todas as partes do Brasil e também estrangeiros (EUA, Angola, Japão, Argentina, Itália, Inglaterra e Portugal) passaram a freqüentar o local, atraídos pelo que assistiam na TV (Globo internacional) ou liam nas revistas a respeito das riquezas do rio Apa, ou mesmo através da internet.

Infelizmente, também apareceram pessoas inescrupulosas, oportunistas e aproveitadores, que “acampavam” nos arredores e se serviam das corredeiras para a pesca puramente predatória. Nesse ponto boa parcela da comunidade juntamente com os empresários do Paraíso do Apa passaram a cobrar das autoridades maior fiscalização.

À medida que as denúncias se avolumavam e após inúmeras solicitações aos órgãos competentes, culminou que o governo estadual criou o Posto de Polícia Ambiental da Colônia Cachoeira. Com a doação de materiais (lonas, colchões, fogão, panelas, etc) feita por João Carlos e seu pai, as guarnições da PMA em serviço na Cachoeira se alojavam provisoriamente em um barracão de lona, erguido próximo às corredeiras com a ajuda de funcionários do hotel. Inclusive as trocas das guarnições de serviço eram feitas usando-se uma camioneta oferecida por João Carlos, durante mais de seis meses, sendo seu pai o motorista, eis que a corporação não dispunha de viatura.

Por fim a cachoeira passou a ser mais e melhor fiscalizada com a presença dos militares ambientais, porém, principalmente na parte acima das corredeiras, algumas práticas ilegais ainda se mantinham. Motivos: a dificuldade de acesso e a existência de diversas trilhas na mata do entorno das corredeiras que facilitam a evasão.

Num trabalho iniciado em 2001 em conjunto com biólogos e pesquisadores contratados e membros da comunidade, culminou que a prefeitura criou o Parque Natural Municipal da Cachoeira do Apa, que à primeira vista seria uma grande oportunidade para fomentar o turismo de um modo geral, além da pesca, complementando o trabalho de preservação da cachoeira e gerando mais empregos e renda.

Inexplicavelmente, com fundamentações desencontradas, ocorreu a publicação do Decreto 11032 em 19 de dezembro de 2002 por ordem do então governador Zeca do PT. Por conseguinte, o que parecia estar caminhando para um ajuste social e econômico favorável à Colônia Cachoeira, trabalhado arduamente e almejado há tempos, tudo veio abaixo.

Depois da publicação do referido decreto:

As atividades do Hotel Paraíso do Apa foram encerradas. Tornou-se inviável economicamente, pois os locais onde a pesca continuaram permitida ficam muito longe. Mais de quarenta postos de trabalho foram extintos.

O Posto da Polícia Ambiental praticamente foi desativado. Umas poucas vezes se têm visto policiais em serviço no local. O telhado chegou a ruir parcialmente. Recentemente teve início um trabalho de reforma das instalações, ao que se sabe com a ajuda de fazendeiros e que não foram concluídas até a presente data.

O antigo Camping Cachoeirão deu lugar a um “condomínio” de pescadores, com inúmeras edificações e que não param de crescer, comumente abarrotado de pessoas que têm as corredeiras quase que como uma área particular para pesca, sem qualquer disciplina ou fiscalização, onde assistimos ano após ano uma verdadeira matança de peixes, principalmente dourados, jaús e pacus, sem qualquer escrúpulo.

O “Parque da Cachoeira”, paralisado após a troca do governo municipal em 2005, não passa de um local demarcado por uma placa, nada mais, cuja área de entrada serve de estacionamento para carros de pescadores e a casa existente abriga uma família de nativos que aluga o espaço para pescadores e comercializa peixes capturados no rio Apa.

Estranhamente, também chama a atenção o fato de que o Sr Zeca do PT, quem ordenou a elaboração e publicação do referido decreto enquanto governador do estado do MS, pouco tempo depois inaugurou uma grande pousada próximo à foz do rio Apa denominada POUSADA PANTANEIRA – FOZ DO RIO APA. Diz o boca-à-boca que tal medida foi puramente uma “Eliminação de concorrência”. Será?

Apesar de ainda existir na Colônia Cachoeira toda a infra-estrutura para funcionar os serviços de hotel, restaurante, locadora de barcos e motores de popa, além de pessoal treinado e pessoas dispostas a investir na atividade de turismo de pesca esportiva, sem contar a ampla divulgação do pesque-e-solte em suas águas que nunca deixou de ser feita (Programas de TV e internet que são produzidos semanalmente no local), não houve até então efetivo apoio político nem regulamentação apropriada que a incentivasse. Também não se pode afirmar que houve desinteresse por parte da comunidade, pois já apresentaram projeto e propostas ao governo do Estado imediatamente após a publicação do Decreto 11032, fato noticiado até pela imprensa oficial e que, lamentavelmente, não teve sequer uma resposta do governo do Estado desde àquela época.

O pior disso tudo é que não existem alternativas de trabalho para os moradores, salvo uns poucos postos nas fazendas de gado adjacentes. Tudo que fora preparado e os treinamentos ministrados anos a fio para o turismo de pesca está paralisado ou subutilizado, desde 2003. O assistencialismo tem sido a tábua de salvação da maioria das famílias. Muitos jovens têm sido prostituídos ou aliciados para a prática de pesca predatória em troca de gorjetas e bebidas alcoólicas à vontade. A falta de melhores oportunidades os torna cada vez mais vulneráveis. E quando indagados a respeito, simplesmente alegam que na Colônia não têm nada melhor por fazer e que, se tivessem onde e como trabalhar com vistas à preservação, que o fariam felizes.

De fato, convenha-se, como podemos falar a essas pessoas, jovens ou pais de família, para não cederem ao alcoolismo ou às drogas, ou à prostituição, para pensarem num futuro melhor ou na preservação ambiental, quando mal sabem o que vão ter para comer e se é que terão o que dar de comer aos filhos?

Maior indignação na verdade vem do fato de que existe uma saída plausível e ao alcance de todos, porém que ainda não foi levada adiante, e que depende apenas de uma firme decisão político-administrativa a nível estadual. Solução saudável e em plena conexão com os recursos naturais da Colônia Cachoeira, com sua vocação para a pesca esportiva e o turismo. Temos pessoas preparadas e empenhadas em contribuir. Só nos falta a mão amiga do governo estadual a quem compete fazer os ajustes necessários na lei e regulamentar a atividade, sem perder de vista a necessária preservação ambiental. O rio Apa tem todas as indicações para ser elevado à posição de RESERVA DE RECURSOS DE PESCA ESPORTIVA, a exemplo de outros. Não permitir que continuem levando o que o rio tem de mais valioso no mercado do turismo de pesca, que vale muito, mas vivo – os grandes peixes - e não nos freezers de umas poucas dezenas de pessoas, conseguidos com miseráveis gorjetas e bebidas alcoólicas e que trazem nenhum benefício real à comunidade da Colônia Cachoeira.

Apenas com a pesca esportiva, entendida aqui como a prática do pesque-e-solte, respeitando-se a pesca de subsistência necessária aos ribeirinhos, juntamente com o turismo contemplativo agregado, permitiremos às pessoas da Colônia Cachoeira seguirem seu caminho de forma digna, protegidas dos predadores, garantindo-lhes o direito ao trabalho limpo e à geração de riquezas que a atividade traz, sabidamente em todo o planeta.

Desde setembro 2005 João Carlos Pinto da Silva, ex sargento do Exército, ex gerente do antigo Hotel Paraíso do Apa e também um dos fundadores da APPATur, morador da Colônia Cachoeira há vinte anos, vem produzindo o Pesca Sem Fronteiras, programa de TV semanal veiculado atualmente em nove pequenas emissoras, em cinco estados do Brasil e também pela internet. O programa “tenta” manter a chama do ideal da pesca esportiva no rio Apa acesa, mostrando pescarias gravadas principalmente no rio Apa, incentivando o pesque-e-solte e promovendo a educação ambiental, na esperança de que o Estado, repito, possa rever o tal decreto e, oxalá, salvar o rio Apa e o Cachoeirão, elevando-o à categoria de Reserva de Recursos de Pesca Esportiva, a exemplo de tantos outros. Com as gravações do programa João Carlos tem conseguido manter o emprego fixo de duas pessoas e, esporadicamente, algumas diárias para os monitores de pesca que ainda permanecem residindo na colônia, eis que o êxodo rural tem sido uma constante.

Dados da Colônia colhidos em fevereiro de 2003

I- Existem 54 (cinqüenta e quatro) famílias presentes. Foram consideradas apenas as que residem no mínimo há sete anos na colônia na área próxima à escola local e ao Parque Natural da Cachoeira do Apa. Famílias que migraram, mesmo que temporariamente, para outras localidades ou que residem em fazendas distantes foram desconsideradas.

II- Somam 232 (duzentos e trinta e duas) pessoas, entre adultos, jovens e crianças;

III- A média é de 4,3 (quatro vírgula três) pessoas por família;

IV- As 54 famílias estão distribuídas em 47 (quarenta e sete) casas;

V- Das casas existentes: 20 (vinte) são de alvenaria, mesmo que inacabadas; 04 (quatro) são de tábuas; 23 (vinte e três) são de pau-a-pique e cobertas com palha e/ou lona plástica;

VI- 18 (dezoito) famílias possuem banheiro em suas casas, mesmo que inacabados;

VII- Os que dependem direta ou indiretamente da atividade de pesca amadora e turismo puderam melhorar as condições de vida de suas famílias após a instalação da rede elétrica do projeto Luz no Campo, com a aquisição de bens considerados de primeira necessidade tais como geladeira e/ou freezer, ferro elétrico, rádio, televisor, etc;

VIII- A melhoria na qualidade de vida das famílias é evidente naquelas em que ao menos uma das pessoas esteve trabalhando diretamente com os turistas como guia, em relação aos que, por exemplo, vendiam iscas, nos últimos anos;

IX- 15 (quinze) famílias mantêm algum tipo de plantação em seus quintais, mesmo que apenas mandioca;

X- 31 (trinta e uma) famílias possuem fogão a gás;

XI- 37 (trinta e sete) famílias possuem freezer ou geladeira, ao que até agosto de 2001 eram 07 (sete) apenas;

XII- 21 (vinte e uma) famílias possuem TV com antena parabólica, ao que até agosto de 2001 eram apenas 06 (seis);

XIII- 06 (seis) famílias possuem no mínimo uma vaca ou boi;

XIV- 02 (duas) famílias possuem carneiros;

XV- 18 (dezoito) famílias possuem pequeno pomar;

XVI- 04 (quatro) famílias ainda utilizam água do rio Apa para consumo, apesar de a Colônia estar servida de água encanada de poço artesiano;

XVII- 19 (dezenove) famílias possuem bicicleta;

XVIII- 06 (seis) famílias possuem carro ou motocicleta;

XIX- Das 232 pessoas: 02 (dois) são empresários; 10 (dez) são aposentadas; 03 (três) são inválidas; 32 (trinta e duas) são guias de pesca com Registro na Marinha; 09 (nove) trabalham como guias de pesca sem o Registro da Marinha; 08 (oito) homens adultos possuem emprego fixo; 04 (quatro) mulheres adultas possuem emprego fixo; 97 (noventa e sete) são crianças de 0 a 14 anos; 20 (vinte) são jovens de 15 a 18 anos; 65 (sessenta e cinco) são homens e/ou idosos sem aposentadoria; 50 (cinqüenta) são mulheres adultas e/ou idosas; 86 (oitenta e seis) são pessoas adultas e/ou idosas sem emprego fixo e/ou sem aposentadoria;

XX- Na época do defeso (pesca fechada) a maioria das famílias conta apenas com ajudas externas, como Bolsa Escola, PETI, Vale Renda, doações, cestas básicas (não para todos) vindas de programas do governo como o “Segurança Alimentar” e de seus poucos serviços de empreitas ou diárias que são esporádicas e irregulares;

XXI- Considerando apenas o número de pessoas que trabalham direta ou indiretamente na prestação de serviços aos turistas da pesca amadora e esportiva, multiplicado pelo número médio de pessoas por família, têm-se na colônia 206 (duzentos e seis) pessoas aproximadamente, entre adultos e crianças, que dependem da atividade como principal fonte de renda durante as temporadas de pesca no rio Apa e adjacências;

XXII- Não houve nenhuma ação efetiva de incentivo ao turismo de pesca esportiva por parte dos órgãos públicos desde que a atividade fora iniciada em 1996.

XXII- Não existem alternativas imediatas ou de curto prazo para a geração de emprego e/ou complementação de renda;

Relatório de situação geral da Colônia Cachoeira (Abril de 2010)

1. O Decreto 11.032 de 19 dez 02

No tocante ao Decreto acima, que proibiu a pesca de qualquer modalidade nos trechos que especifica, ainda cremos que seja feito justiça e aguardamos o possível ajuste das medidas. O decreto, carregado de parcialidade, afetou diretamente a maioria das famílias da Colônia Cachoeira.

Ao contrário do que poderia se esperar, as conseqüências desse decreto beneficiaram àqueles que nunca tiveram compromisso ou dependência direta com a preservação do nicho. A depredação continua, nos mesmos locais de antes, e até aumentaram seu ritmo, ou seja, assistimos a ocupação desordenada das margens do rio, pesca predatória na cachoeira e na porção à montante das corredeiras, no rio Perdido e na região da foz do Rio Apa.

O rio Apa na Colônia Cachoeira já vinha sendo conhecido internacionalmente pela prática da pesca esportiva desde o ano de 2000, antecipando inclusive aquilo que o Governo estadual pretendia para até 2005. Prova disso foram os inúmeros trabalhos veiculados em TVs e Revistas especializadas e o inédito Torneio Feminino de Pesca Esportiva realizado em outubro de 2002, sucesso que foi ao ar pela Rede Globo no início de 2003. Sem contar as constantes visitas de turistas estrangeiros, vindos dos EUA, Japão, Portugal, Itália, Argentina, Inglaterra e Angola. Todos estes eventos foram fomentados por João Carlos Pinto da Silva, à época gerente do Hotel Paraíso do Apa que encerrou suas atividades por conta do decreto e hoje trabalha como diretor e produtor do Programa Pesca Sem Fronteiras veiculado em nove emissoras de TV e na internet.

O nível de emprego na Colônia, depois da publicação do decreto caiu a quase zero. Quarenta postos de trabalho foram fechados e as famílias perderam ainda a renda que tinham com a venda de suas produções.

O Parque Natural da Cachoeira do Apa

Esperamos também a conclusão do Parque Natural da Cachoeira do Apa por acreditarmos que, além dos empregos que venham a ser gerados, ainda ajudará no combate à pesca predatória que vem ocorrendo a partir de suas trilhas, estas que servem até como pontos de fuga dos infratores ao perceberem a presença dos Policiais Ambientais.

O Posto de Polícia Militar Ambiental

Implantado no final de 1999, o posto da PMA na Colônia Cachoeira contribuiu muito no combate à pesca predatória enquanto funcionou.

Inicialmente, com um bom efetivo e um comandante próprio, o trabalho começou firme. Infelizmente o posto ficou privado de viatura e em pouco tempo o efetivo foi reduzido a dois militares em cada serviço, depois a apenas um até sua desativação total. Com isso as ações por parte da polícia ambiental também ficaram limitadas.

Situação Social dos moradores

Desde que a Colônia Cachoeira existe, estimada em mais de 70 anos, nunca a comunidade recebeu tantas benfeitorias e atenção dos administradores públicos como nestes últimos 10 anos no que diz respeito à estrada, escola, assistência de saúde, água encanada e energia elétrica. Também nunca ocorrera tamanho desenvolvimento social e econômico igual ao proporcionado pelo turismo de pesca em apenas sete anos (1996-2002). Mas, apesar disso, a situação financeira da maioria das pessoas ficou péssima ou retrocedeu a partir de janeiro de 2003, claramente em decorrência do Decreto Estadual 11.032 de 20 dez 02.

Em 1996, ao iniciar-se a atividade de turismo de pesca na Colônia, muitos jovens começaram então a desenvolver sua primeira profissão como “piloteiros” ou funcionários no hotel. Hoje estes jovens já têm suas próprias famílias e filhos. Moram em casas de alvenaria que construíram com o dinheiro ganho no turismo e possuem muitos utensílios que necessitam da energia elétrica, considerados bens de primeira necessidade, ao contrário de seus pais. Nota-se que evoluíram muito nesse período, afinal, a atividade profissional que abraçaram oferecia uma renda melhor que a de seus pais, além de uma constância maior nos períodos de trabalho. Assim, desde logo passaram a ajudar efetivamente na composição da renda familiar elevando a auto-estima dos seus.

Vale lembrar que no ano de 2000, apenas no Hotel Paraíso do Apa eram empregadas 43 (quarenta e três) pessoas, dentre as quais chefes ou arrimos de famílias. Havia ainda aquelas que trabalhavam em torno do “Camping Cachoeirão” e da tal “Casa Verde” situadas de fronte as corredeiras.

Muitos outros trabalhos indiretos surgiram naquela época, a exemplo dos produtores de “iscas de pacú”, que processavam a bocaiúva (ou macaúba), extraídas de seus quintais e na mata adjacente, ou então, prestando outros serviços como lavadeiras, arrumadeiras, diaristas, ou vendendo produtos de suas pequenas lavouras, vendendo galinhas e ovos, trabalhando na manutenção da estrada que era precária e cheia de atoleiros, etc.

E agora? O que estas pessoas estão fazendo? Onde estão trabalhando? Como estão se virando? São perguntas difíceis de responder, aliado ao fato de que o êxodo rural se intensificou nos últimos anos. Famílias inteiras, nascidas e criadas na Colônia Cachoeira, por falta de trabalho têm se mudado para a cidade.

Como alguns próprios moradores dizem, daqueles mais antigos:

“A gente se virava até bem antes da chegada da energia elétrica, antes mesmo de terem melhorado a estrada da colônia (MS 467). As mulheres é que sofriam mais, pois tinham de ir ao rio pra lavar roupa e buscar água para as crianças. Quase ninguém tinha geladeira ou televisor, nem ferro elétrico ou banheiro e parece que vivíamos bem. Nós plantávamos uns pés de mandioca, banana e batata, pescava ou matava algum bicho pra comer”.

Outra versão foi dada pelo Sr Donato Ojeda, que possuía um “bolicho” lá na colônia e que fornecia as mercadorias aos piloteiros e outros moradores:

“Antes de começar as pescarias aqui no Apa, enquanto a mulher pegava água na mina, ali, no pé do morro, os guris ficavam catando coquinho pra matar a fome e eu ia tentar matar algum bicho com uma foice. Se eu matasse comia, se não passava fome”.

Este senhor que a duras penas conseguiu estabelecer seu pequeno comércio na comunidade, recentemente nem sal tinha pra vender. Donato afirma que mesmo durante os períodos de piracema ele fornecia as mercadorias (víveres) aos piloteiros, pois recebia tão logo a temporada se iniciasse. Que por vários anos nunca teve problema com isso. E completou:
“Depois daquela lei do governador (referindo-se ao decreto) fiquei desesperado. Eu não podia receber as contas porque acabaram com a pesca aqui na colônia. Os piloteiros não me pagaram porque não tiveram mais onde trabalhar e nem consegui repor as mercadorias. Depois minha mulher morreu e eu acabei de vez”.

No âmbito geral, na comunidade da Cachoeira é fácil comprovar todo o desarranjo sócio-econômico gerado a partir de 2003 bastando observar o seguinte:

O alto índice de inadimplência entre os moradores da Cachoeira em relação às contas de energia elétrica, lojas, mercados, bolichos, etc;
Os cortes no fornecimento de energia que vêm ocorrendo freqüentemente e em maior número;

Tudo somado coloca as pessoas em situação vexatória, deixando-as com o moral baixo, desacreditadas e desestimuladas. Aí vem a descrença no poder público, entra ano e sai ano e as promessas não se cumprem e quase nada têm sido feito efetivamente.

Não é necessário ser letrado para entender, por exemplo, as causas do elevado número de jovens em meio ao alcoolismo, jogos de azar (baralho) e até prostituição, que são sérios problemas a serem enfrentados com urgência na Colônia Cachoeira. E no caso dos rapazes, para ganharem algum dinheiro, se submetem à pesca predatória no rio Apa e em suas corredeiras, em troca de gorjetas e bebida alcoólica farta oferecidas principalmente pelos proprietários de ranchos próximos à corredeira que teimam em preocupar-se apenas em garantir grandes quantidades de peixe para levarem embora.

Apesar da boa vontade e dos esforços da Secretaria de Ação Social, os programas de segurança alimentar, bolsa escola, PETI, etc, tem atendido apenas uma parcela das famílias.

Precisamos resgatar a dignidade das pessoas da Colônia e retomar o processo de desenvolvimento local. O turismo em geral e a pesca esportiva são vocações naturais da Colônia Cachoeira. Não esse tipo de pesca praticada por pessoas sem qualquer compromisso ou preocupação com a comunidade, que explora os jovens em troca de migalhas e de pinga, a um custo ambiental elevadíssimo. Queremos preservar os peixes no rio, com o pesque-e-solte. Queremos voltar ao trabalho com os turistas que pagam bem para que mantenhamos o local preservado, o rio com bastante peixe, a Cachoeira sem aquela quantidade de lixo e com trilhas conservadas e protegidas.

Por fim, precisamos da mão forte do governo para regulamentar a atividade turística e a pesca esportiva no rio Apa. Nosso rio merece entrar para o rol das Reservas de Recurso de Pesca Esportiva, salvaguardando, é claro, a pesca de subsistência de nossos colonos.

A agricultura familiar

Nem todas as famílias possuem terras. Alguns pequenos lotes são ocupados por várias famílias.

Em caráter emergencial, em 2003, depois do caos decorrido da publicação do Decreto 11.032, a Prefeitura Municipal e o Idaterra ofereceram sementes, óleo diesel e mais sessenta horas de máquina para o preparo de terras à cultura de milho e feijão, fato devidamente noticiado pela imprensa regional.

Porém, a ajuda só pôde contemplar dezenove famílias, pois não há terras disponíveis para todos. Destas, apenas sete possuem área de um a quatro hectares e o restante delas menos de um hectare. O que resultou, inclusive, na devolução de boa parte das sementes, e algumas das famílias que tiveram o benefício acabaram por desistir da idéia, dado ao fato de julgarem que não valeria à pena. Dona Rosa, uma das moradoras, chegou a dizer:

“Não vou plantar nada porque não vale à pena. De tão pouco espaço, o que produzir os bichos vão comer. Daí, se eu matar o bicho a polícia ambiental me prende. Não quero passar raiva”.

A APPATur

Com o nome fantasia de “Colônia de Pescadores Esportivos do Rio Apa” e seguindo os ideais do governo federal, com o PNDPA – Programa Nacional de Desenvolvimento da Pesca Amadora, do Ibama, a APPATur foi fundada para dar representatividade às pessoas da Colônia Cachoeira que passaram a trabalhar com o turismo de pesca esportiva, principal fonte de suas rendas.

Os trabalhos para buscar os ideais estatutários começaram no final de 1999 com os funcionários do antigo Pesqueiro Paraíso do Apa. Desde aquela época vinha buscando melhores resultados no trabalho com a prática do pesque e solte e de outras modalidades de turismo agregadas, principalmente quando iniciaram as gravações dos vários programas de TV para a divulgação da prática, além de matérias em revistas especializadas. Porém, somente após a publicação do decreto 11.032 é que foi sua criação foi oficializada. Seu primeiro presidente foi João Carlos Pinto da Silva que, não por coincidência, foi um dos seus idealizadores.

“Eu tinha certeza que isso um dia iria acontecer, só não imaginava que em tais circunstâncias e apesar de também estar muito prejudicado pela medida tomada pelo governo estadual, ao que costumei dizer que fomos atingidos por fogo amigo e que o governo apenas errou o alvo. Mas acreditamos que a justiça será feita e um dia nosso trabalho será reconhecido. Deus permitirá e faremos do rio Apa um modelo para que todo o município de Porto Murtinho acredite na pesca esportiva (pesque e solte), mais viável e rentável em relação às demais modalidades da pesca amadora”.

A APPATur prima por buscar novas oportunidades para melhorar a qualidade de vida de seus associados e estimular novas atividades que possam se ligar ao turismo e por sua vez a ampliação das fontes de renda das famílias da comunidade, tais como apicultura, psicultura, criação de jacarés, capivaras, avestruzes, etc.

Como primeiro grande desafio, a APPATur vem trabalhando no sentido de implantar o sistema pesque e solte como única modalidade permitida para o turismo de pesca no rio Apa, eis que no rio Perdido já o é.

A APPAtur, cadastrada no Ibama (CTF) sob nº 329048, já é uma entidade de Utilidade Pública Municipal (Lei nº 1261/03 de 12 mai 03) e, além de seus associados, conta com o apoio de inúmeras comunidades de pescadores esportivos do Brasil e de todos os mais de cinco mil membros do Clube virtual “Amigos do Rio Apa”.

Por fim, esperamos com as informações trazidas nestes documentos, também poder contar com o apoio dos governantes e da classe política de nosso Estado.

Copyright © 2005 João Carlos "Pescador de Jaú" Todos os direitos reservados Gestão Ativa - Soluções Web