Preâmbulo de um sonho, um ideal (Jan/2003) Voltar

“O que com o vento vem, com o vento voa” - diz um velho ditado espanhol, para nos lembrar sempre de que nada que se consegue com facilidade prospera. É por isso talvez, que nossa esperança, ao invés de esmorecer se fortalece e continuamos lutando por nosso ideal. Até a vitória final. Ver nosso sonho se realizar, depois de tanto trabalho, tantos obstáculos encontrados e que estamos vencendo, um por um, é o que esperamos.

Esta luta, para ver definitivamente implantada a sonhada colônia de pesca esportiva, proposta pela APPATur, até esta etapa tem sido grande e, por vezes até desumana, pois não temos influência e poucas são as nossas armas. Só a nossa vontade tem imperado, aliada à boa vontade e compreensão de poucos.

Muitos interesses, sejam eles inspirados na ganância irracional, ou medo de mudar, ou na mera "bronca" de algumas pessoas e até de funcionários públicos, quem sabe até por pura ignorância, têm tentado interpor nosso ideal. Barreiras, "denuncismos" infundados de alguns contra aquelas pessoas que lutam contra a depredação, dificuldades fabricadas para nos fazer desistir da idéia de implantar uma atividade que visa o desenvolvimento sustentável da comunidade da Colônia Cachoeira. Esta que viveu por mais de meio século esquecida. E mais recentemente, apesar de melhor "assistencializada" pelo poder público em relação a uma década atrás, ainda vive das sobras de uns poucos que desejam ter o caminho livre para continuarem predando a famosa Cachoeira do Apa. Essa pessoas que, além de serem de fora, não geram emprego, não geram renda, deixam seu lixo para trás e levam tudo que podem embora no que diz respeito aos peixes do rio, facilmente capturados nas corredeiras do cachoeirão. E a ação da polícia ambiental?... só vendo para crer.

Com a criação da APPATur, objetivando dar maior cunho social e desenvolvimentista local, trabalhamos para preservar esse nicho ecológico natural, sem dissociá-lo do vetor econômico. Porém ainda as dificuldades têm sido das maiores, quase intransponíveis.

Após o despertar para a exploração econômica do rio Apa, através do turismo da pesca, inicialmente desorganizado e danoso, muitas sereias entoaram seu canto ilusório, sem produzir nada que fosse pensando no desenvolvimento local ou no crescimento do elemento humano nativo da colônia Cachoeira. Nesta balada, muitas foram as propostas, os projetos, para um pseudo desenvolvimento local, sem, no entanto, haver sido chamada a principal interessada, a comunidade local, para uma participação efetiva, aos moldes que se apregoa nos meios públicos de modo geral. Nem mesmo para se decidir por um decreto de gabinete como foi o Decreto 11.032 de 19 de dezembro de 2002, publicado a toque de caixa e que foi ordenado por telefone pelo então governador do MS Sr Zeca do PT durante uma de suas pescarias - que ironia. Uma medida desrespeitosa e inconseqüente que quase enterrou as esperanças de sobrevivência dos cachoeiranos, principalmente daqueles que investiram dinheiro e tempo, tempo em treinamentos, cursos e toda uma preparação de anos para o trabalho com o turismo, etc.

Pelo contrário, com a promulgação desse decreto, se estimulou e ainda estimula o êxodo rural dessa gente, principalmente dos mais jovens, para outras localidades estranhas à cultura e ao labor a que estavam habituados. Mais ainda, estimula a fila ao assistencialismo que depõe contra a dignidade humana, derrubando a auto-estima. Deixa alquebrado o moral, pois hoje, em que pese os benefícios da energia elétrica, da água encanada e do telefone implantados, os chefes de famílias da colônia Cachoeira vivem inadimplentes e não podem pagar pelo que teria de ser um benefício. Lógico, os cachoeiranos já quase não têm como sobreviver ou prover seu sustento de forma digna. Pior, os que ficam vão se acostumando novamente ao tempo em que viviam como mero extrativistas, mesmo em tempos do bolsa-esmola, digo, bolsa-escola, que o governo oferece. Aliás, acreditem se quiser, tal "auxílio" tem estimulado algumas mulheres a gerarem mais filhos "imaginando" que vão garantir maior renda em pouco tempo. Lamentável. Sequer a agricultura é possível na comunidade.

Se no passado, distante, a lavoura foi o meio principal de sobrevivência, hoje isto já não é possível. Não há terra suficiente, pois o latifúndio engoliu grande parte das pequenas propriedades, para com a pecuária extensiva, acantonar esse povo. Tanto é assim, que sementes que foram entregues numa dessas horas de "delírio solucionista" pelo poder público, em grande parte tiveram de ser devolvidas, pois não havia terra para plantar, e não há. Tudo que se projetou, mais uma vez, em gabinetes, sem consulta suficiente aos homens da terra.

Em vista de tudo isso, este trabalho tenta mostrar tais distorções, que queremos acreditar até que foram bem intencionadas - aliás o inferno está cheio delas -, mas sem o embasamento necessário e vital, para se encontrar uma saída viável e real, ante a realidade da colônia Cachoeira, incluindo o homem e a natureza, de forma harmônica e eficaz, mostrando o que pode ser feito e não o que se acha que deve ser feito.

Tudo com relação à colônia Cachoeira exige um estudo mais profundo, com vista para o social, humano e natural, tendo sempre em conta que o homem necessita continuar vivendo enquanto tudo isto acontece, e mais, que ele faz parte do meio ambiente, afinal há mais de cem anos esse povo vive nela. Estabelecer essa relação e esta filosofia através de um decreto ditado por telefone, ou de projetos elaborados em gabinetes, nos parece temerário, cruel e injusto.

 João Carlos Pinto da Silva - Presidente da APPATur

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